2 de maio de 2014

Transformado ou Transtornado?

Companheiros de luta,

No post de hoje quero lhe convidar a fazer uma reflexão acerca de um sentimento horrível que está se tornando tão presente em nosso meio: a inveja. Para exemplificar minha reflexão, trago dois exemplos bem ilustrativos, um bíblico e um de nossa literatura brasileira. Convido você a me acompanhar nessa leitura e espero que possamos fazer uma análise de como estamos lidando com isso.
Preliminarmente, devemos ter em mente que a igreja, enquanto instituição composta por pessoas, é atacada diuturnamente pela influência maligna que impera no mundo. Não podemos esquecer, que enquanto membros do Corpo de Cristo, possuímos uma missão clara e específica, qual seja, sermos sal da terra e luz do mundo. Dentro dessa perspectiva, podemos dizer que a igreja deve influenciar as pessoas e não ser influenciada por aqueles que não conhecem a Verdade.
Na sociedade em que vivemos é visível o espírito de competição entre as pessoas. Em certos casos, essa competição chega a ser meio patológica, e isso não pode ser visto como aceitável. Não estou dizendo que ter um espírito competitivo seja algo ruim, não é isso! A competição, quando trabalhada adequadamente, é salutar e nos ajuda a crescer corretamente. O grande problema é a forma como se compete, se estamos usando as regras válidas de competição ou se estamos trapaceando.
Fazendo um parêntese: acho que deu pra perceber que estou usando a palavra competição de uma forma bem abrangente, pois, na prática, as pessoas competem entre si sem um prévio acordo, por esta razão, entendo que não podemos ficar presos ao sentido estrito da palavra competição.
Olhando a sociedade, mesmo sem um rigor técnico, podemos visualizar que existem pessoas que competem movidas por um sentimento de inveja. Tais pessoas ficam incomodadas com a felicidade do próximo, e isso faz com que elas passem a ter atitudes desonestas contra seus semelhantes, o que pode gerar consequências catastróficas.
A Palavra de Deus nos mostra bons exemplos de inveja, mas trarei um bem conhecido, que é o episódio da Vinha de Nabote, que está registrado em 1 Reis 21, porém, transcreverei apenas os 16 primeiros versículos:

1 - E sucedeu depois destas coisas que, Nabote, o jizreelita, tinha uma vinha em Jizreel junto ao palácio de Acabe, rei de Samaria.
2 - Então Acabe falou a Nabote, dizendo: Dá-me a tua vinha, para que me sirva de horta, pois está vizinha ao lado da minha casa; e te darei por ela outra vinha melhor: ou, se for do teu agrado, dar-te-ei o seu valor em dinheiro.
3 - Porém Nabote disse a Acabe: Guarde-me o Senhor de que eu te dê a herança de meus pais.
4 - Então Acabe veio desgostoso e indignado à sua casa, por causa da palavra que Nabote, o jizreelita, lhe falara, quando disse: Não te darei a herança de meus pais. E deitou-se na sua cama, e voltou o rosto, e não comeu pão.
5 - Porém, vindo a ele Jezabel, sua mulher, lhe disse: Que há, que está tão desgostoso o teu espírito, e não comes pão?
6 - E ele lhe disse: Porque falei a Nabote, o jizreelita, e lhe disse: Dá-me a tua vinha por dinheiro; ou, se te apraz, te darei outra vinha em seu lugar. Porém ele disse: Não te darei a minha vinha.
7 - Então Jezabel, sua mulher lhe disse: Governas tu agora no reino de Israel? Levanta-te, come pão, e alegre-se o teu coração; eu te darei a vinha de Nabote, o jizreelita.
8 - Então escreveu cartas em nome de Acabe, e as selou com o seu sinete; e mandou as cartas aos anciãos e aos nobres que havia na sua cidade e habitavam com Nabote.
9 - E escreveu nas cartas, dizendo: Apregoai um jejum, e ponde Nabote diante do povo.
10 - E ponde defronte dele dois filhos de Belial, que testemunhem contra ele, dizendo: Blasfemaste contra Deus e contra o rei; e trazei-o fora, e apedrejai-o para que morra.
11 - E os homens da sua cidade, os anciãos e os nobres que habitavam na sua cidade, fizeram como Jezabel lhes ordenara, conforme estava escrito nas cartas que lhes mandara.
12 - Apregoaram um jejum, e puseram a Nabote diante do povo.
13 - Então vieram dois homens, filhos de Belial, e puseram-se defronte dele; e os homens, filhos de Belial, testemunharam contra ele, contra Nabote, perante o povo, dizendo: Nabote blasfemou contra Deus e contra o rei. E o levaram para fora da cidade, e o apedrejaram, e morreu.
14 - Então mandaram dizer a Jezabel: Nabote foi apedrejado, e morreu.
15 - E sucedeu que, ouvindo Jezabel que já fora apedrejado Nabote, e morrera, disse a Acabe: Levanta-te, e possui a vinha de Nabote, o jizreelita, a qual te recusou dar por dinheiro; porque Nabote não vive, mas é morto.
16 - E sucedeu que, ouvindo Acabe, que Nabote já era morto, levantou-se para descer para a vinha de Nabote, o jizreelita, para tomar posse dela. (Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Negritei e sublinhei)

Logicamente que deste texto podemos tirar várias lições, mas como estamos refletindo sobre a inveja, particularmente este sentimento como força motriz de uma espécie de competição, fica claro que o rei Acabe não tinha razão justificável para querer a vinha de Nabote para si. O desejo foi impróprio e a solução dada por sua esposa, Jezabel, foi pior ainda.
De certo que o rei queria a Vinha, mas diante da recusa de Nabote, que apresentou seus motivos, pois havia herdado de seus pais (v.3), o que sobrou ao rei foi ficar afligido. O sentimento pecaminoso nasce no coração de Jezabel, que o transmite ao rei, perceba aí que já temos uma espécie de “consórcio competitivo” com a finalidade de ter aquilo que não é seu e que não está à venda.
Daí pra frente, temos o desenrolar da história que passa pelo assassinato de Nabote e a apropriação da vinha por parte do rei Acabe.
Nossa literatura brasileira traz outro exemplo bem interessante na poesia de Patativa do Assaré:

“Seu moço, me escute uma triste verdade,
Que até dá vontade
Da gente chorar;
Escute quem foi que azarou a minha vida,
Nas terras querida
Do meu Ceará.
Eu era rendeiro do J. Veloso,
Um rico invejoso,
Malvado sem par,
Senhor de dinheiro e de léguas de terras,
De baixa e de serra,
Disponível para arrendar.
Eu, vendo as terras daquele ricaço,
Um certo pedaço
Com gosto arrendei,
Pois vi que o terreno para tudo convinha,
A terra só tinha
Madeira de lei.
Joguei-me deveras na serra fechada,
De foice Conrad,
Machado Collins
Jucá revirava, pau d’arco caía,
E a cobra fugia
Com medo de mim.
Depois de algum tempo, no dito baixio,
De carga de milho
Quebrei mais de cem.
Havia de tudo, melão, macaxeira,
E muita fruteira
Vingando também
De tudo o tributo correto eu pagava,
E sempre me achava
De bom a melhor.
Vivia contente, gostando da vida,
Com minha querida
Maria Loló.
Então, seu moço, fugiu a penúria,
Chegou a fartura
Me enchendo de fé;
Mas veio depois uma inveja danada,
A filha gerada
Do monstro Lusbel.
O J. Veloso, me vendo arranjado,
Ficou afobado,
Pegou a invejar,
Falando zangado, com raiva e com grito,
Dizendo que o sitio
Me vinha tomar.
Pedi a justiça com muito respeito,
Meu justo direito
Naquela questão,
Porém ao matuto sem letra e grosseiro,
Faltando dinheiro,
Ninguém dá razão.
Deixei minha terra, a querida Mombaça,
Que grande desgraça
Seu moço, eu sofri!
Deixei as belezas da terra adorada,
E triste e sem nada,
Cheguei por aqui.
Por causa de inveja, por esse motivo,
Doente hoje eu vivo
No seu Maranhão.
Sofrendo saudade, tormento e canseira,
Gemendo na esteira
Com febre e sezão.
Me resta somente a feliz sepultura,
E a vida futura
Que Nosso Senhor
Promete a quem sofre e padece inocente;
A vida presente
Para mim acabou.
Eu hoje devia viver sossegado,
No sitio arrendado,
No caro torrão:
Porém ao matuto sem letra e grosseiro,
Faltando o dinheiro,
Ninguém dá razão!”. (Citada por José Gonçalves em Porção Dobrada).

A narrativa de Patativa do Assaré é clara em mostrar que a felicidade daquele personagem incomodou, e muito, o dono da terra que, como o próprio texto diz, era invejoso, o que fez com que ele tomasse a terra que havia arrendado.
Fazendo uma comparação entre os dois textos, percebemos a semelhança entre as duas histórias, pois a felicidade dos dois personagens foi interpretada como barreira para o rei Acabe e para J. Veloso, que não mediram esforços para satisfazer seus sentimentos invejosos.
As duas histórias demonstram claramente atitudes de pessoas que não servem a Deus para com seus semelhantes, ou seja, acontecimentos fora da Igreja.
Como disse no início deste post, nós, como membros do Corpo de Cristo, possuímos uma missão específica de sermos sal da terra e luz do mundo, o que nos conduz a influenciar [positivamente] a sociedade e não o contrário. Mas, o que temos visto na prática é que estamos nos deixando influenciar por estes sentimentos comuns entre os que não servem a Deus.
Já está se tornando corriqueiro ver competições dentro da igreja. É competição entre os membros, em particular, entre os integrantes da banda, dos grupos de louvor, entre pregadores, entre alunos de escola dominical, entre ministérios e até dentro de um mesmo ministério e por aí vai.
É muito comum vermos competições unilaterais - por isso no início disse que não estamos falando de competição no sentido estrito da palavra - onde a pessoa que se deixou levar pelo sentimento de inveja passa a ter comportamentos impróprios contra seu irmão. E aí, a consequência lógica de tudo isso é este exército de pessoas feridas espiritualmente, em função de tais competições nas igrejas.
Quem não conhece ou pelo menos já ouviu falar de alguém que foi vítima dessas competições? Quantas pessoas estão desigrejadas atualmente por terem passado por esta trágica experiência? Quantas pessoas até se desviaram em função disso? São perguntas que nos fazem pensar...
Não podemos crer [verdadeiramente] em Deus e termos os mesmos padrões de conduta dos que não serve a Deus, ou cremos e somos transformados ou não cremos. Salutar é a recomendação de Romanos 12.2:

2 - Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Nova Versão Internacional. Negritei).

Se somos seguidores de Jesus não podemos nos comportar como os que estão nas trevas, devemos buscar uma vida de santidade, devemos nos dedicar a leitura da Palavra, devemos ter uma vida de oração, devemos saber lidar com nossas fraquezas, buscando forças em Deus. A inveja não traz nada de bom para nós e por isso devemos lutar para que este sentimento não domine a nossa vida.
Por fim, vale lembrar Provérbios 14.30:

30 - O coração em paz dá vida ao corpo, mas a inveja apodrece os ossos. (Nova Versão Internacional. Negritei).

Como está escrito em 2 Coríntios 4:13, parte b:

(...): Eu cri; por isso, é que falei. Também nós cremos; por isso, também falamos. (Almeida Revista e Atualizada, negritei).

Fiquem na Paz do Eterno.

Bibliografia Consultada:

GONÇALVES, José. Porção Dobrada: Uma análise bíblica, teológica e devocional sobre os ministérios proféticos de Elias e Eliseu. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico: Suplemento Bibiográfico dos Grandes Teólogos e Pensadores. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

Bíblia de Estudo NVI. São Paulo: Editora Vida, 2003.

7 de novembro de 2013

Administração Financeira da Igreja: uma comparação entre o padrão de fiscalização no Setor Público e nas Igrejas.

Companheiros de luta,

No post de hoje gostaria que refletíssemos sobre um tema muito delicado, e que é de fundamental importância para nós, pois tem gerado situações constrangedoras tanto para líderes quanto para os membros de Igrejas. O tema central da nossa reflexão é a chamada Administração Financeira da Igreja, de antemão gostaria que ficasse claro que este post não tem a intenção de denegrir a imagem de qualquer denominação ou de seu respectivo líder, muito menos levar a membresia a se rebelar contra a liderança de sua Igreja, pelo contrário, o objetivo principal é trazer à baila uma reflexão necessária sobre o tema, para que possamos ter uma compreensão ainda melhor de como devemos lidar com essa situação. Para tanto, achei por bem trazer o assunto em forma de comparação entre como a Administração Pública lida com o assunto e como a Igreja pode lidar com a questão. Espero contar com sua leitura até o final do post.
Para que possamos fazer a comparação pretendida, há necessidade de analisarmos os dois modelos separadamente, para chegarmos a uma conclusão lógica sobre o assunto, por isso, entendo que é melhor começarmos pela análise da Administração Pública.
Perceba que o tema foi delimitado no título deste post, ou seja, trataremos apenas de aspectos da fiscalização da administração financeira, e aqui vou restringir ainda mais, pois o tema é muito grande e se tornaria enfadonho tratar de todos os aspectos, portanto, trataremos apenas da fiscalização que pode ser exercida pelos administrados, dentro do direito de acesso à informação.
Deveria ser de conhecimento de toda a população que o volume de dinheiro arrecadado pelo Estado Brasileiro em função da cobrança de impostos, e uso aqui a palavra no seu sentido mais abrangente, não me restringindo ao seu sentido técnico, tem de ser gasto/aplicado, pela administração pública, de forma racional e obedecer a certos preceitos legais, não pode ser feito de qualquer jeito. Por esta razão, o ordenamento jurídico nacional disponibilizou toda uma estrutura de fiscalização deste gasto/investimento dos recursos públicos, que passa pelo legislativo, que recebe o auxílio dos Tribunais de Contas, bem como outros mecanismos que estão a disposição do sistema para fiscalizar a aplicação dessas verbas.
É de se considerar que com o avanço e consolidação da democracia, cresceu também na sociedade, de uma forma geral, o anseio por uma maior transparência com relação aos gastos públicos, isso fez com que fossem desenvolvidos mecanismos para uma prestação de contas mais efetiva à sociedade.
Por volta das décadas de 1980 e 1990, período que faz parte do que alguns chamam de terceira onda de democratização, se consolidou o termo accountability, que pode ser considerado como sendo o conjunto de mecanismos e procedimentos que levam o gestor público a prestar contas dos valores que lhe são confiados. Dentro desta perspectiva, segundo José Matias Pereira, “quanto maior a possibilidade de os cidadão poderem discernir se os governantes estão agindo em função do interesse da coletividade e sancioná-los apropriadamente, mais accountable é um governo”.
Como disse parágrafos acima, estou me restringindo apenas a um dos inúmeros aspectos que poderiam ser abordados dentro deste tema, pois ele é muito abrangente, e bem interessante de se estudar. Meu foco é com relação ao chamado direito de acesso à informação, que o contribuinte tem dentro dessa relação com o gestor público.
Sei que para alguns é até difícil de acreditar, mas foram criados, ao logo dos últimos anos, diversos mecanismos que obrigam o gestor público a prestar contas dos valores a ele confiados, prestação de contas que deve ser periódica, dentro daquela ideia acima colocada da accountability.
Quero crer que você já ouviu falar do Portal da Transparência do Governo Federal (acesse aqui), esta página foi criada justamente dentro deste espírito de levar à população informações sobre a movimentação financeira da União, tais como receitas, despesas, convênios, gasto com servidores etc. Bem como todos os repasses da União para os Estados, Municípios e Distrito Federal.
Se formos olhar na esfera Estadual, perceberemos que não é diferente. Pegando como base o Estado de São Paulo, perceberemos que na internet estão disponíveis tais informações, aí vai de quem está acessando saber fazer a busca de forma correta, pois em alguns casos a nomenclatura usada é Transparência em outros é Prestando Contas, mas todo sítio governamental tem.
No Poder Executivo, Governo de São Paulo, podemos encontrar com a nomenclatura Prestando Contas (acesse aqui). No Poder Judiciário, encontramos com a nomenclatura Transparência (acesse aqui). No Poder Legislativo, encontramos, também, com a nomenclatura Transparência (acesse aqui).
Perceba, amigo leitor, que o ordenamento jurídico vigente em nosso país (acesse aqui o de âmbito Federal), obriga a Administração Pública a prestar contas à população, disponibilizando à todos, de forma clara e acessível, os Relatórios, Balanços, Contratos, Convênios etc. Este foi o mecanismo criado para que, dentro de um regime democrático, possamos ter um grau satisfatório de transparência com relação a Administração Financeira do Estado.
Por outro lado, quando analisamos a Administração Financeira da Igreja, devemos fazer algumas distinções, para que não incorramos em erros comuns que alguns membros sempre cometem por falta de conhecimento.
Em primeiro lugar, é de se considerar que a receita da Igreja - e uso aqui a palavra receita no seu sentido econômico – vem basicamente dos dízimos e das ofertas – uso a palavra oferta no seu sentido mais amplo, ofertas tradicionais, ofertas específicas, votos etc.
Sendo assim, devemos considerar que, ao contrário do que se percebe com relação ao Estado, a receita da Igreja tem uma particularidade, que é a questão da voluntariedade de quem contribui. Ou seja, o membro, frequentador ou simpatizante da denominação, dá aquela contribuição de forma voluntária – não quero aqui entrar na discussão de que algumas Igrejas praticam verdadeiras extorsões – o que faz com que não se tenha como prever, com exatidão, qual será a receita total da Igreja.
Por outro lado, não podemos olvidar que isso também é muito relativo, vai de Igreja para Igreja, pois existem as que sua membresia possui um bom entendimento sobre o ato de ofertar, sobretudo com relação ao dízimo – e aqui não quero entrar na discussão se devemos ou não devolver o dízimo – e isso faz com que a administração já faça uma projeção de quanto será a arrecadação mensal baseada nesta contribuição específica, o dízimo, com a finalidade de organizar as finanças, sobretudo os investimentos e expansão da obra.
Agora, quando se trata de ofertas, a coisa muda, pois fica mais complicado se fazer uma projeção segura, pois é muito variável, em função dessa característica da voluntariedade das contribuições.
Feitas essas considerações, voltemos ao nosso ponto central, que não é a arrecadação em si dos valores, e sim a forma como a membresia será informada da utilização das verbas oriundas de suas contribuições.
Vale aqui uma observação, pois não quero que meu leitor pense que a administração da Igreja deva estar submissa a vontade da membresia no tocante a como  dispor daqueles recursos oriundos das contribuições. Pode até existir alguma denominação que tenha isso na sua estrutura administrativa, mas - e isso é uma opinião minha - quem deve decidir sobre a correta aplicação do dinheiro arrecadado na Igreja são os seus administradores, o que não quer dizer que não possam atender a alguns anseios da membresia.
Dentro dessa conjuntura, há que se ter, por parte dos administradores, um cuidado com a legislação vigente em nosso país, sobretudo no que diz respeito a contabilidade da Igreja, e sei que isso tem se tornado um gargalo para muitos por inúmeros motivos, os quais não quero abordar neste post.
Sei que para se ter uma contabilidade bem organizada, se faz necessário a contratação de um serviço profissional, para que as coisas possam ser feitas dentro da legalidade e isso não sai barato, mas os administradores não podem arriscar, deixando este trabalho nas mãos de pessoas sem o devido preparo técnico.
Em sendo feita a contabilidade da Igreja da forma correta, fica muito mais fácil [para seus administradores] ter em mãos a realidade financeira da Igreja, o que possibilitará fazer os reparos necessários e quem sabe até impulsionar um crescimento de arrecadação, para investimento em outras áreas. Sem falar que, com uma administração contábil bem feita, a prestação de contas é muito mais fácil de ser realizada.
E por falar na prestação de contas, devemos ter em mente que cada Igreja, dentro de sua realidade econômica, vai poder desenvolver a melhor forma de compartilhar as informações relevantes com sua membresia.
Sei que parágrafos acima, quando falávamos do Estado, demos exemplos do Portal da Transparência do Governo Federal, bem como de sítios dos poderes Legislativo e Judiciário, que disponibilizam seus Relatórios, Balanços, Contratos, Convênios etc. Mas, sabemos que nem todas as Igrejas possuem verba suficiente para pagar a criação e manutenção de tais ferramentas.
Por esta razão, devemos considerar que, de alguma forma, a membresia possa ter acesso a contabilidade da Igreja, e isso deve ser encarado de forma bastante tranquila por parte dos administradores, pois, a meu ver, tem um viés positivo a ser considerado, tendo em vista que, o membro, ao perceber que os administradores possuem uma correta aplicação das contribuições, poderá se sentir estimulado a aumentar o valor de suas contribuições.
Vale aqui lembrarmos as palavras do Apóstolo Paulo registradas em 2 Coríntios 8.14.24:

14 - No presente momento, a fartura de vocês suprirá a necessidade deles, para que, por sua vez, a fartura deles supra a necessidade de vocês. Então haverá igualdade,
15 - como está escrito: "Quem tinha recolhido muito não teve demais, e não faltou a quem tinha recolhido pouco".
16 - Agradeço a Deus, que pôs no coração de Tito o mesmo cuidado que tenho por vocês,
17 - pois Tito não apenas aceitou o nosso pedido, mas está indo até vocês, com muito entusiasmo e por iniciativa própria.
18 - Com ele estamos enviando o irmão que é recomendado por todas as igrejas por seu serviço no evangelho.
19 - Não só por isso, mas ele também foi escolhido pelas igrejas para nos acompanhar quando formos ministrar esta doação, o que fazemos para honrar o próprio Senhor e mostrar a nossa disposição.
20 - Queremos evitar que alguém nos critique quanto ao nosso modo de ministrar essa generosa oferta,
21 - pois estamos tendo o cuidado de fazer o que é correto, não apenas aos olhos do Senhor, mas também aos olhos dos homens.
22 - Além disso, estamos enviando com eles o nosso irmão que muitas vezes e de muitas maneiras já nos provou que é muito dedicado, e agora ainda mais, por causa da grande confiança que ele tem em vocês.
23 - Quanto a Tito, ele é meu companheiro e cooperador entre vocês; quanto a nossos irmãos, eles são representantes das igrejas e uma honra para Cristo.
24 - Portanto, diante das demais igrejas, demonstrem a esses irmãos a prova do amor que vocês têm e a razão do orgulho que temos de vocês. (Nova Versão Internacional. Negritei e sublinhei).

Colocados os dois modelos, Estado e Igreja, podemos concluir que, se o padrão do mundo, representado aqui pelo Estado, em particular nos países considerados democráticos, é no sentido de se ter cada vez mais uma transparência com relação a aplicação dos recursos públicos por parte de seus gestores, disponibilizando de forma clara e acessível à população todas as informações sobre seus gastos, contratos, convênios etc., por qual motivo nós, que conhecemos a verdade, que temos como referência valores cristãos e que temos a missão de sermos sal da terra e luz do mundo, temos nos omitido, na maioria das vezes, neste ponto, considerado, em algumas Igrejas, como algo desnecessário ou até causador de certos desconfortos?
Acho que é válida a reflexão dos líderes e dos membros sobre este assunto, para que possamos dar exemplo de transparência na Administração Financeira da Igreja, tudo para a honra e glória do nome do Senhor.
Como está escrito em 2 Coríntios 4:13, parte b:

(...): Eu cri; por isso, é que falei. Também nós cremos; por isso, também falamos. (Almeida Revista e Atualizada, negritei).

Fiquem na Paz do Eterno.

Bibliografia Consultada:

DUARTE, David Tavares. A Igreja e o novo Código Civil – As mudanças e outras considerações jurídicas sobre a prática eclesiástica. 5. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
PEREIRA, José Matias. Curso de Administração Pública: foco nas instituições e ações governamentais. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2009.
QUINTANA, Alexandre Costa. et al. Contabilidade Pública: de acordo com as novas normas brasileiras de contabilidade aplicada ao setor público e a lei de responsabilidade fiscal. São Paulo: Atlas, 2011.